Consciência Materna

por Ana Cláudia Bessa

A forma de enxergar a maternidade está mudando.

Atualmente é muito comum ver as mulheres fazerem o caminho inverso do caminho trilhado pelas duas últimas gerações e estão ficando em casa e cuidando, elas mesmas, de seus filhos pequenos. Eu mesma fiz isso.

É curioso perceber que muitas mulheres estão fazendo isso por motivos muito variados. Existem casos em que a mulher simplesmente não consegue ir trabalhar e deixar o filho em casa. Eu nem passei por essa escolha porque já tinha me decidido a ficar em casa. Mas, na época em que findaria minha licença maternidade regulamentar, eu imaginei como seria difícil voltar a trabalhar ou escolher e deixar em uma creche. Foi um alívio não ter que passar por isso.

Outras mulheres, tentam se dividir entre o trabalho e os filhos, como uma amiga, e ela conta duas histórias: a do primeiro filho em que ela saia de casas às 6 e voltava às 20h, deixando sempre com alguma alma caridosa em que ela confiasse  (seja avó, ou empregada); e a da segunda filha, que ela decidiu largar o emprego e que hoje vê a diferença de qualidade de vida que ela teve entre um filho e outro.

Tenho ainda uma outra amiga, cuja carreira de magistrada a impossibilita ficar em casa mas cujos esforços sempre se baseiam em estar presente na vida do filho, conciliando horários, fazendo concessões relevantes, dedicando seu tempo livre, participando de sua vida escolar. Mas sempre atuante e presente.

E não é fácil tomar essa decisão. Largar um emprego, uma carreira, fruto da dedicação de toda uma vida não é fácil e já contei um pouco do que vivi aqui. É uma tortura ficar em casa, é uma tortura sair de casa. Acredito que a maioria esmagadora das mulheres passa por esse dilema em maior ou menor intensidade.

Compreender que há outros pontos de vista é o início da sabedoria. (Campbell)

Mas me chama atenção quando leio textos e fico sabendo de livros em que se recriminam as mulheres que tomam esta decisão. E a velha facilidade em se rotular as decisões alheias é posta em prática e as “novas Amélias” são criticadas por estarem promovendo um retrocesso da condição feminina conquistada a duras penas.

Eu compreendo este ponto de vista porque entendo que as conquistas do feminismo radical foram extremamente importantes. Sem essas conquistas, as mulheres não receberiam o respeito social que tem hoje, mesmo ainda faltando muito para o ideal. E para isso, elas precisaram sair de casa e trabalhar, ganhar seu próprio dinheiro, conquistando assim sua independência.

Isso é fato. Não adianta negar: somos mais respeitadas porque começamos a ser donas de nossas vidas e isso significa emancipação profissional e dinheiro. Independência financeira. A vida feminina sempre foi difícil, subjugada, desrespeitada. Não gosto de usar este tipo de pontuação, mas acho realmente que aqui cabe dizer que, mesmo sendo ruim ainda, avançamos muito.

A saída do reduto de lar foi muito importante para ampliar a visão feminina do mundo. O lar, como situação onipresente, oprime e escraviza. É o pior dos trabalhos: sem hora de começar, de terminar, sem férias, sem fim-de-semana, sem metas definitivas (trabalhos repetitivos que assim que terminados, recomeçam como a louça da pia), extenuante, braçal, nada intelectual e sem reconhecimento. Entendo o receio que muitas mulheres sentem ao ver  como retrocesso o processo que estamos vivendo. Mas não é.

Todo ponto de vista é a vista de um ponto. (Leonardo Boff)

Tudo depende da visão que temos. Não é um retrocesso exatamente, e sim um resgate necessário. E isso para mim é bem claro como um biquíni: fomos ao extremo, que foi o fio dental. Dali prá frente só nu. Como o nu significa o desaparecimento do biquíni e isso não é interessante, vemos um retrocesso aos biquínis maiores. E isso sem que os menores se percam. Eles continuam sendo vendidos e comprados, mas há a opção dos maiores sem que as que aderem a seu uso sejam chamadas de tias que usam calçolas.

Haverá espaço para todos, precisamos é resgatar o respeito às escolhas e o importante respeito que devemos ter com a natureza de fato, e isso inclui tanto as florestas como as essências humanas, como a feminina.

Posso afirmar, com segurança, que a maioria que está indo na contramão das duas últimas gerações de mulheres estão retomando sua consciência feminina. Não é preciso ter medo. O medo dessa transformação é inútil, visto que este processo de resgate, a meu ver, é irreversível e já começou. Assim como não precisamos de 3 décadas para ver o mal que causamos à sociedade com o uso indiscriminado de materiais descartáveis e estamos sendo obrigados a retroceder ao uso de artigos reutilizáveis como as antigas sacolas de feira e os engradados de vidro. Da mesma forma, não precisamos de tantas gerações para ver que ainda não encontramos o modelo feminino ideal baseado na transformação feminista das últimas décadas.

Esse medo “feminista” não é à toa, nem infundado. É compressível, afinal, não queremos regredir à condição social feminina de nossas avós.  E, é preciso lembrar que o que foi conquistado é extremamente importante pois ele foi a base de formação educacional e cultural dessas mulheres que querem fazer este resgate. Isso não irá se perder porque isso nos faz sermos as mulheres que somos, são nossa essência. Nossos filhos e filhas serão criados para serem independentes tanto quanto fomos criadas para ser. Somos filhas de mulheres que estudaram, trabalharam e tiveram menos filhos. Não vejo o menor risco de criarmos futuras e exclusivas donas-de-casa, até porque, não o somos mais!

Mães que empreendem.

pesquisa da rede BBC, intitulada ‘Mães Magnatas’, observou que 40% das mães que criaram seu próprio negócio tiveram a idéia quando estavam grávidas ou dentro de um ano após o nascimento do bebê. Além disso, 92% das empresárias com filhos atribuem o sucesso nos negócios a uma série de habilidades que desenvolvem durante a experiência da maternidade.

Olha que interessante: “Entre essas habilidades estão a capacidade de realizar diversas tarefas ao mesmo tempo, planejamento de atividades futuras e eficiência. O psicólogo Geoffrey Beattie, que analisou os dados da pesquisa, disse que “a gravidez tem um grande efeito sobre o corpo e o cérebro”.

Segundo outra pesquisa, agora aqui no Brasil, realizada pelo Sebrae (Serviço de apoio a pequenas empresas) e pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), em 2009, as mulheres representaram 53% dos que, abriram próprios negócios ou passaram a atuar de forma autônoma, por necessidade ou escolha. Para mim, este foi o caminho para que eu me realize pessoal e profissionalmente e ainda me permite realizar uma maternidade mais plena e atuante, já que posso fazer as duas coisas, dentro da minha casa.

Fácil não é. Pelo contrário. Conciliar casa, filhos, família e trabalho dentro do mesmo ambiente é um desafio dos maiores. No meu caso, o maior que já enfrentei – olha aqui a capacidade de realizar diversas tarefas ao mesmo tempo… rs… E embora a mulher que fica em casa seja encarada erroneamente como uma pessoa que não faz nada, eu trabalho como nunca trabalhei em meus 14 anos de atuação profissional em empresas multinacionais.

Sem contar que essas análises feitas pelas pessoas que defendem o antigo feminismo desconsideram o leque enorme de possibilidades que a internet cria para as mulheres que querem empreender (essa é a história do meu site Futuro do Presente e de muitas outras mulheres que vieram antes e depois de mim), afinal, ela possibilita que possamos trabalhar em casa, seja através de um empreendimento próprio ou através de um home-office (autônomo ou não). Um exemplo excelente e recente é o site Cia. da Mães, cuja finalidade é proporcionar um canal de vendas exclusivo para as mães empreendedoras.

Esse resgate da essência feminina, nada mais é do que tomar consciência de que não somos exatamente como os homens, não queremos o mesmo que os homens e principalmente, temos necessidade diferentes dos homens (ainda maiores se pensarmos na maternidade). E, que sabemos que temos um papel diferente do homem na sociedade. E isso já fica claro pela própria natureza quando pensamos na gestação, parto e amamentação. Negar isso, é negar nosso feminino essencial. E até por essa necessidade de resgate ao feminino é que vemos tanto interesse em resgatar o parto natural (até domiciliar como foi o caso da modelo Gisele Bundchen) e abandonar a mamadeira e assumir a importância do leite materno que foi totalmente desmerecido pela indústria na década de 70. Estamos deixando de ser filhos do leite em pó que já está provado, não substitui o leite materno.

Além de tudo isso, a maternidade não é descartável ou substituível. Essa uma grande retomada da mulher dentro da família. A realidade está aí, inegável e dura, nos mostrando o que a terceirização da criação dos filhos fez com sociedade. Nós, que já os temos, também precisamos mostrar que antes de ter filhos é preciso ter consciência do que a maternidade/paternidade exige e do que estamos dispostos a abrir mão: nosso tempo, perseverança e paciência, por exemplo. Coisas difíceis hoje em dia.

Há espaço para os dois modelos femininos e de maternidade e eles precisam co-existir. Além disso, existem vários tipos de mulheres-mães, mas 4 são importantes citar: as que terceirizam e delegam a maternidade em prol de sua realização pessoal – a pior, pois colocar um ser no mundo é sim, uma responsabilidade de quem o coloca. Há que se divide entre sua realização pessoal e a familiar buscando um equilíbrio entre as duas necessidades. Há a que tem uma carreira ou é autônoma e que não imagina parar o trabalho mas que adapta suas necessidades às necessidades da maternidade buscando caminhos alternativos e horários que possibilitem uma realização mais plena de ambos. E há a que simplesmente abre mão da carreira em prol da família mas mesmo essa, hoje, não é como nossas avós e nunca será porque foi criada e ensinada a ver o mundo de forma diferente. Inclusive na forma como os homens estão passando a se ver e como vemos nossos parceiros: homens que partilham e dividem igualmente a responsabilidades, agruras e alegrias de cuidar dos filhos. Cada dia mais estamos mostrando à eles o que esperamos deles e que não há mais espaço para os pais e companheiros ausentes.

Mas o papel do feminismo radical e questionador dessa nova mãe-mulher é importante como referência e apoio para as mulheres que não querem fazer este resgate e para manter as que querem sempre alertas. Um modelo precisa do outro até porque a sociedade precisa também das mulheres atuantes no mercado de trabalho tradicional como juízas, executivas, políticas. As mulheres precisam se “adonar” da sociedade para que ela mude. E vai mudar. Precisamos é repensar a maternidade e torná-la tão moderna quanto a percepção de algumas mulheres quanto às suas carreiras porque depois da maternidade, não há como a vida seguir da mesma maneira. A vinda dos filhos provoca e exige mudanças e se não estamos dispostos a fazer isso, melhor seria também assumir se temos ou não perfil para termos filhos. E parar de fazer isso apenas porque é socialmente recomendável. A sociedade cobra isso mas não dá apoio para a manutenção dessa condição. Te cobra e te abandona. O modelo atual fracassou. É fato. Ou algum de nós, pais e mães, nos sentimos tranquilos de soltar os filhos no mundo de hoje, com os jovens de hoje? De quem é a responsabilidade? Só da escola, só da sociedade, só dos pais?

Às que querem retomar essa consciência feminina materna, saibam que existe essa alternativa, ela é real e viável. Os primeiros anos dos filhos são fundamentais para sua formação. E fundamental como um trabalho social primário porque afeta a formação familiar e inicial, essencial de todo indivíduo. Nossos filhos. Futuros cidadãos. E não é a babá maravilhosa, passar o dia todo na melhor escola ou na caríssima creche que farão o que o ser humano precisa neste primeiro momento de sua vida. Vida que nós escolhemos lhe dar. Se as crianças passam o dia sob a tutela de outros valores, não podemos esperar que eles aprendam os nossos. Os nossos valores, quem dá, somos nós.

Nós não precisamos ser santas, não precisamos ser perfeitas. Mas a maternidade precisa ser mais atuante, plena e presente. Cada mulher a sua maneira. Ninguém disse que é fácil. E quem disse que a maternidade seria, não é? E quem disse que a gente tem que ser uma coisa ou outra?

Nunca podemos esquecer que o equilíbrio está sempre no caminho do meio.

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